terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ás vezes, as tempestades são bem necessárias, como afirma José Eduardo Agualusa, num artigo da Revista Pública de 7 de Setembro. As tempestades são um movimento brusco que provoca mudanças, que origina renovações. A partir desse instante, nada pode ser como dantes e daí que sejamos obrigados a evoluir, a abrir os olhos.

Para crescer, é preciso…

Segundo o pediatra Mário Cordeiro, os bebés recém-nascidos sofrem de um stress relacionado com a alteração radical do ambiente uterino para o mundo “cá fora”- “Trata-se de uma fase de organização do cérebro, que terá que ser percorrida para se atingir um grau de maturidade superior."[1] Curiosa esta perspectiva, considerando que estamos numa época em que o sofrimento parece não ter sentido nenhum e em que tudo o que é bom, fácil e saboroso é que vale a pena. Todavia, se pensarmos bem, olharmos a nossa própria vida ou a vida dos que nos rodeiam, veremos que existem muitos exemplos de quem, face às adversidades mais inesperadas, demonstraram potencialidades ainda mais surpreendentes, que nem sequer conheciam.
Este poder do sofrimento é qualquer coisa de extraordinário. Recordo um exemplo muitíssimo próximo, cuja personalidade era totalmente pragmática, confinada ao palpável, sem lugar para emoções ou sentimentos e com a frieza normal destas personalidades. Um grande sofrimento, contínuo e progressivo, mostra-nos, hoje, alguém paciente, amável e sensível. Este novo ser evoluiu, progrediu, transformou-se com a ajuda de uma dor intensa, que não deixou espaço para o egoísmo e para a superficialidade.
Por algum motivo, a Bíblia salienta a cruz como uma oportunidade, mas também, não deixa de referir que esta proposta é uma tamanha “loucura”- “Efectivamente, a linguagem da cruz é uma loucura para os que se perdem, mas, para os que se salvam, isto é, para nós, é a força de Deus.”[2] De facto, trata-se de uma “loucura”, uma vez que não é o caminho mais fácil, nem sedutor, mas, certamente, que também não se trata de masoquismo, de procurar o sofrimento. Trata-se de perceber o sofrimento como algo que deve ser construtivo e de sentir que tudo é para bem. E isto é uma tremenda aventura.
Quantos de nós temos dificuldade no relacionamento com uma determinada pessoa, com quem, ainda para mais, temos de conviver de perto? Quantos de nós já passámos por dores físicas, psicológicas e/ ou morais que pareciam ferir de morte? E quantos de nós, apesar de tudo isso, ainda acordamos, ainda lutamos, ainda sorrimos? Dá saúde e faz crescer.
A propósito, aproveito para contar uma pequena história. Era uma vez um comerciante de canela. Ele comprava o produto em rama, reduzindo-o a um pó finíssimo, através de um moinho de pedras. Um dia, o moinho deixou de funcionar. As pedras estavam desgastadas e era preciso importar outras da Alemanha. Passou o tempo, e as pedras nunca mais chegavam e a canela estava por moer. Um amigo, vendo a tristeza do comerciante, aconselhou-o a ir ao rio buscar uns seixos rolados do tamanho das pedras gastas e encaixá-los no moinho, fazendo-os girar durante vários dias, sem deitar a canela. Ele assim fez. Ao fim de quinze dias, verificou que os seixos rolados, de tanto roçarem e chocarem um no outro, tinham ficado polidos e tão lisos como as pedras vindas da Alemanha.
Moral da história: pode ser através de uma pessoa ou de um acontecimento, mas todos precisamos de algo que nos faça polir as arestas, tirar os picos, crescer e “atingir um grau de maturidade superior.”
[1] O Grande Livro do Bebé, A Esfera dos Livros, pág 389
[2] 1 Cor, 1 18-19

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