
Leituras e Leitores
Já nos tempos de Platão, se acreditava que a leitura remontava às mais primordiais origens do ser. De alguma forma, entendemos uma palavra porque o objecto ou o conceito já se encontra na nossa mente. É curioso pensarmos nisto, para percebermos o quanto é fundamental exercitar estas capacidades inatas, o quanto é fundamental ler e o quanto lemos, toda a nossa vida, sem termos total consciência disso.
Cada vez que olhamos, que procuramos um sentido para um objecto, para uma pessoa, estamos a ler, estamos a dar significação a algo que nos é exterior. Todos nós lemos a todo o momento. Lemos o nosso próprio ser e lemos o mundo que nos rodeia. Ler é uma função vital, tal como respirar e comer.
Pensar neste assunto, pode lhe parecer abstracto, sem nenhuma utilidade pragmática, no entanto, não deixo de dizer que nem só de pão e circo vive o Homem. O Homem é muito mais do que isso. O Homem é origem, motor e alvo de infindáveis significações, cuja dimensão é muito maior do que o próprio Homem em si mesmo.
É aqui que o leitor entra, uma vez que está desse lado, a procurar significados para as “minhas” palavras, para as “minhas” ideias, talvez para formar as suas próprias ideias ou para, simplesmente, distrair o seu olhar, por entre alguns caracteres. De qualquer forma, onde quer que esteja a ler este texto, quer esteja a lê-lo por alto, na transversal, como quem lê um panfleto qualquer, quer esteja mais descansado a degustar a leitura, em si mesma, fico feliz por simplesmente estar aí. De uma maneira ou de outra, está a dar, a mim e a si, uma oportunidade de leitura, de descodificação de signos linguísticos que, para mim, têm um sentido, mas que, para o leitor, poderão ter múltiplos outros sentidos. Afinal, o que lemos assenta no que lemos anteriormente, assim como, o que vivemos, num dado momento, assenta no que vivemos nos momentos precedentes.
A escrita serve, assim, como libertação. Por um lado, ao escritor, como catarse e como transferência de modos de olhar o mundo. Por outro, ao leitor, como fuga às suas idiossincrasias e como descoberta de outros olhares. A partir do momento da escrita, o texto, aquela arrumação de palavras deixa de ter dono e passa a ser um corpo livre e selvagem, que ninguém controla verdadeiramente.
Sócrates dizia que o leitor deveria ser suficientemente humilde, para acreditar que as palavras escritas poderiam fazer mais do que recordá-lo do que já sabia. Fournival salientava que a leitura enriquecia o momento presente, actualizava o passado, prolongando-se até ao futuro. Todas estas concepções, podem parecer-nos algo teóricas, quando comparadas com uma abordagem, como a de Daniel Pennac, quando este refere o “direito a não ler”. Todavia, primeiro, temos de ganhar consciência de que todos lemos, a toda a hora, em qualquer lugar. De seguida, devemos pensar que a leitura propicia-nos uma racionalidade e uma emotividade únicas. Por fim, vale a pena considerar que as nossas vivências futuras dependem da forma como vivemos e apreendemos o presente.
Se acreditarmos nestas palavras, será mais fácil ganhar motivação para uma leitura atenta e receptiva do mundo, mesmo que, para isso, tenhamos de “aturar” textos como os “meus”.
“Talvez a história da leitura seja, em última instância, a história de cada um dos seus leitores.”
MANGUEL, Alberto Uma História da Leitura
Boas leituras!
Já nos tempos de Platão, se acreditava que a leitura remontava às mais primordiais origens do ser. De alguma forma, entendemos uma palavra porque o objecto ou o conceito já se encontra na nossa mente. É curioso pensarmos nisto, para percebermos o quanto é fundamental exercitar estas capacidades inatas, o quanto é fundamental ler e o quanto lemos, toda a nossa vida, sem termos total consciência disso.
Cada vez que olhamos, que procuramos um sentido para um objecto, para uma pessoa, estamos a ler, estamos a dar significação a algo que nos é exterior. Todos nós lemos a todo o momento. Lemos o nosso próprio ser e lemos o mundo que nos rodeia. Ler é uma função vital, tal como respirar e comer.
Pensar neste assunto, pode lhe parecer abstracto, sem nenhuma utilidade pragmática, no entanto, não deixo de dizer que nem só de pão e circo vive o Homem. O Homem é muito mais do que isso. O Homem é origem, motor e alvo de infindáveis significações, cuja dimensão é muito maior do que o próprio Homem em si mesmo.
É aqui que o leitor entra, uma vez que está desse lado, a procurar significados para as “minhas” palavras, para as “minhas” ideias, talvez para formar as suas próprias ideias ou para, simplesmente, distrair o seu olhar, por entre alguns caracteres. De qualquer forma, onde quer que esteja a ler este texto, quer esteja a lê-lo por alto, na transversal, como quem lê um panfleto qualquer, quer esteja mais descansado a degustar a leitura, em si mesma, fico feliz por simplesmente estar aí. De uma maneira ou de outra, está a dar, a mim e a si, uma oportunidade de leitura, de descodificação de signos linguísticos que, para mim, têm um sentido, mas que, para o leitor, poderão ter múltiplos outros sentidos. Afinal, o que lemos assenta no que lemos anteriormente, assim como, o que vivemos, num dado momento, assenta no que vivemos nos momentos precedentes.
A escrita serve, assim, como libertação. Por um lado, ao escritor, como catarse e como transferência de modos de olhar o mundo. Por outro, ao leitor, como fuga às suas idiossincrasias e como descoberta de outros olhares. A partir do momento da escrita, o texto, aquela arrumação de palavras deixa de ter dono e passa a ser um corpo livre e selvagem, que ninguém controla verdadeiramente.
Sócrates dizia que o leitor deveria ser suficientemente humilde, para acreditar que as palavras escritas poderiam fazer mais do que recordá-lo do que já sabia. Fournival salientava que a leitura enriquecia o momento presente, actualizava o passado, prolongando-se até ao futuro. Todas estas concepções, podem parecer-nos algo teóricas, quando comparadas com uma abordagem, como a de Daniel Pennac, quando este refere o “direito a não ler”. Todavia, primeiro, temos de ganhar consciência de que todos lemos, a toda a hora, em qualquer lugar. De seguida, devemos pensar que a leitura propicia-nos uma racionalidade e uma emotividade únicas. Por fim, vale a pena considerar que as nossas vivências futuras dependem da forma como vivemos e apreendemos o presente.
Se acreditarmos nestas palavras, será mais fácil ganhar motivação para uma leitura atenta e receptiva do mundo, mesmo que, para isso, tenhamos de “aturar” textos como os “meus”.
“Talvez a história da leitura seja, em última instância, a história de cada um dos seus leitores.”
MANGUEL, Alberto Uma História da Leitura
Boas leituras!
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