sábado, 20 de setembro de 2008

Incontornável


Já há uns tempos largos que ando para falar sobre isto. Tenho adiado porque é um assunto que me merece todo o cuidado e porque sei o quanto podem fazer a desinformação e os meios de deformação que pairam por aí. De qualquer forma, apesar da demora, não adio mais. É agora.
Sempre pensei que, se numa sociedade se queria reduzir a frequência de uma prática, o método não era defini-la como um direito, eliminar requisitos, fazê-la barata e assegurar condições para a sua concretização. Afinal, estava enganada. Percebi isso quando se decidiu fazer um referendo sobre a legalização do aborto e mais esclarecida fiquei quando tudo se tornou legal.
As teorias desenvolvidas são diversas, mas a mais corrente é a de que “proibir aumenta” e, logo, “permitir diminui”. Tudo estaria bem, se a teoria se confirmasse, mas não é o caso. Como se justifica que, recentemente, se tenha sabido de uma holandesa que abortou numa clínica em Barcelona, quando o seu país de origem é também permissivo quanto à prática abortiva? Como se justifica que a legalização do aborto não tenha feito diminuir o número de mulheres que recorrem ao aborto no nosso país vizinho? Se calhar, é porque a questão é muito mais complexa do que a dicotomia permitir vs proibir aparenta.
Confrontada com estas situações, a Assembleia Parlamentar do Conselho Europeu decidiu sugerir medidas para que o número de abortos diminuísse, pois, segundo parece, a legalização em si não chega. As sugestões passam pelo acesso fácil à contracepção, tanto para homens, como para mulheres e pela educação sexual. No que diz respeito à primeira ideia, é de salientar que existe fornecimento gratuito de pílulas e de preservativos nos Centros de Saúde já há algum tempo e, segundo se sabe, tal não alterou o número de abortos. Quanto à segunda ideia, temos o exemplo da Suécia, o modelo de Educação Sexual Obrigatória desde 1956 e que, para espanto dos demais, apresenta uma das maiores taxas de aborto da Europa Ocidental.
Para que não faltem dados para a sua reflexão pessoal, caro leitor, deixo-lhe ainda os dados concretos da nossa vizinha Espanha. Segundo o Relatório do Instituto de Política Familiar de 2005, são mortas, em Espanha, 260 crianças por dia, o que perfaz um aborto por cada 5,5 minutos.
De facto, tal como no passado, continuo a achar que este assunto assume contornos sociais muito profundos, daqueles que não é politicamente correcto discutir ou assumir em público. Questões como: quais as nossas prioridades enquanto mulheres?; o que são os filhos para nós?; com que disponibilidade nos entregamos a compromissos sérios e permanentes?; temos consciência de que ninguém é feliz se vive “em si” e “para si”?; o que é um aborto?; quais as suas consequências na identidade pessoal?; sinto-me controlada por aquilo que os outros pensam de mim?; o que faço para ajudar a sociedade na qual estou integrada?... Estas e muitas outras questões são as tais pedras no sapato que ficam por resolver e que não deixam que tudo se resuma a um sim ou não, num qualquer referendo.
Mais grave do que deixar estas questões por discutir e resolver, é pensar que este assunto só diz respeito a quem passa por ele. Como é óbvio, isto algo de todos. Não isentos de quotas.
“Sem a família ou se a família se desestrutura, é praticamente impossível a identidade pessoal. E sem esta não é possível a identidade cidadã, nacional, comunitária, europeia. Eis, pois o grande repto que pesa, na actualidade, sobre a família na Europa. De vós depende o porvir da Europa, do que a Europa quer e deve ser no futuro.”
In POLAINO-LORENTE, Aquilino; A Crise do Casamento e da Família na Europa, Diel, 2007

quarta-feira, 10 de setembro de 2008


Pode não ser fácil...

O espírito de rentrée ainda não é muito propício a assuntos muito sérios e, quiçá, dolorosos, no entanto, mais uma vez, sinto-me entre a espada e a parede e, para além disso, talvez possamos aproveitar estes derradeiros suspiros veraneantes para reunir a famelga e conversar a sério, de um modo calmo e devidamente retemperado, sobre as regras lá de casa.
Um dia destes, enquanto via um programa de televisão dedicado aos avós, pude assistir a uma entrevista a um casal de avós que tinha, em sua casa, uma espécie de creche, para receber todos os seus netos. O avô disse que sabia que eram uns privilegiados por terem condições para tal “luxo” e, relativamente à necessidade de regras na casa, disse, de um modo óbvio, pelo menos para ele, que elas eram muito importantes e que normalmente não havia problemas. Curioso!
Decerto, já ouviu várias vezes aquelas comparações com as sociedades do Norte da Europa, nas quais predominam um civismo e uma educação exemplares. Decerto, já ouviu falar daquelas famílias, onde o rigor e a disciplina são tão naturais como a própria convivência. Decerto, já ouviu muitos psicólogos dizerem que é preciso saber dizer que não. Se todos nós já ouvimos estes comentários, pelo menos uma vez na vida, porque é que ainda se ouve falar tanto de situações de filhos que mandam nos pais, de pais que não conseguem aconselhar os seus filhos, de famílias que não aceitam ajuda de ninguém, mesmo quando já nada lhes resta, de filhos que acham que a missão dos pais é sustentar e suportar todas as suas vontades e desejos?
Estas questões preocupam-me um pouco e, mesmo de férias, não as abandonei (ou elas é que não me abandonaram a mim!). Na revista nº 26 da Blue Living, a jornalista Luisa Jacobetty, no editorial, tem uma expressão muito curiosa que passo a citar- “Antes, o ditado dizia “antes a criança chore que a mãe suspire”. Agora, consultem-se as mais recentes recolhas de provérbios, e já é popular dizer-se: “antes a mãe chore que o filho suspire”. Ora nem eu, nem, com certeza, a referida jornalista, queremos apontar dedos acusatórios, nem propor atitudes radicais e extremistas. Nada disso. Da minha parte, e nunca esquecendo que a juventude é o momento das intensidades por excelência, apenas gostava que filhos e pais fossem FELIZES... em conjunto!
A palavra educar tem, originalmente, o sentido de ponto de partida para a educação, para a instrução. Hoje, a sua definição simplifica-se à ideia de dar educação. Para que esta missão seja possível é preciso salvaguardar duas premissas: o educador tem de saber educar e o educando tem de se deixar educar. Soa a Padre António Vieira!
Considerando que a educação implica obrigatoriamente um conjunto de pessoas, para que ela resulte, terá de se instaurar e preservar a denominada disciplina. A disciplina é o conjunto das regras que regem um determinado grupo de pessoas.
Esta é a teoria. Como em qualquer outro domínio, a prática é muito mais difícil que tudo isto, no entanto, tanto eu, como o leitor, sabemos que temos de começar por algum lado. É em família, no seio de todos os afectos, de todas as dores, o núcleo da intimidade por excelência, que as regras têm de surgir com naturalidade. Se assim for, parece-me- perdoe-me se estiver enganada- que tudo se tornará mais fácil, quer junto dos agentes de socialização- família e escola, como junto de todas as outras pessoas e entidades, ao longo de toda a vida.
A experiência não impede de se cometer um erro; só nos impede de o cometermos com prazer.
Provérbio árabe




Leituras e Leitores

Já nos tempos de Platão, se acreditava que a leitura remontava às mais primordiais origens do ser. De alguma forma, entendemos uma palavra porque o objecto ou o conceito já se encontra na nossa mente. É curioso pensarmos nisto, para percebermos o quanto é fundamental exercitar estas capacidades inatas, o quanto é fundamental ler e o quanto lemos, toda a nossa vida, sem termos total consciência disso.
Cada vez que olhamos, que procuramos um sentido para um objecto, para uma pessoa, estamos a ler, estamos a dar significação a algo que nos é exterior. Todos nós lemos a todo o momento. Lemos o nosso próprio ser e lemos o mundo que nos rodeia. Ler é uma função vital, tal como respirar e comer.
Pensar neste assunto, pode lhe parecer abstracto, sem nenhuma utilidade pragmática, no entanto, não deixo de dizer que nem só de pão e circo vive o Homem. O Homem é muito mais do que isso. O Homem é origem, motor e alvo de infindáveis significações, cuja dimensão é muito maior do que o próprio Homem em si mesmo.
É aqui que o leitor entra, uma vez que está desse lado, a procurar significados para as “minhas” palavras, para as “minhas” ideias, talvez para formar as suas próprias ideias ou para, simplesmente, distrair o seu olhar, por entre alguns caracteres. De qualquer forma, onde quer que esteja a ler este texto, quer esteja a lê-lo por alto, na transversal, como quem lê um panfleto qualquer, quer esteja mais descansado a degustar a leitura, em si mesma, fico feliz por simplesmente estar aí. De uma maneira ou de outra, está a dar, a mim e a si, uma oportunidade de leitura, de descodificação de signos linguísticos que, para mim, têm um sentido, mas que, para o leitor, poderão ter múltiplos outros sentidos. Afinal, o que lemos assenta no que lemos anteriormente, assim como, o que vivemos, num dado momento, assenta no que vivemos nos momentos precedentes.
A escrita serve, assim, como libertação. Por um lado, ao escritor, como catarse e como transferência de modos de olhar o mundo. Por outro, ao leitor, como fuga às suas idiossincrasias e como descoberta de outros olhares. A partir do momento da escrita, o texto, aquela arrumação de palavras deixa de ter dono e passa a ser um corpo livre e selvagem, que ninguém controla verdadeiramente.
Sócrates dizia que o leitor deveria ser suficientemente humilde, para acreditar que as palavras escritas poderiam fazer mais do que recordá-lo do que já sabia. Fournival salientava que a leitura enriquecia o momento presente, actualizava o passado, prolongando-se até ao futuro. Todas estas concepções, podem parecer-nos algo teóricas, quando comparadas com uma abordagem, como a de Daniel Pennac, quando este refere o “direito a não ler”. Todavia, primeiro, temos de ganhar consciência de que todos lemos, a toda a hora, em qualquer lugar. De seguida, devemos pensar que a leitura propicia-nos uma racionalidade e uma emotividade únicas. Por fim, vale a pena considerar que as nossas vivências futuras dependem da forma como vivemos e apreendemos o presente.
Se acreditarmos nestas palavras, será mais fácil ganhar motivação para uma leitura atenta e receptiva do mundo, mesmo que, para isso, tenhamos de “aturar” textos como os “meus”.
“Talvez a história da leitura seja, em última instância, a história de cada um dos seus leitores.”
MANGUEL, Alberto Uma História da Leitura
Boas leituras!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Para pensar...


"O melhor negócio do mundo seria: comprar os homens pelo que valem e vendê-los pelo que pensam valer."


"Não há santos sem passado, nem pecadores sem futuro."


"Cada palavra, cada gesto, cada telefonema, cada decisão, devem ser a coisa mais bela da nossa vida."


"O amor é a coisa mais importante do mundo, mas não há nada que tenha sofrido distorção pior, nem uma degradação mais vil."


"Mais vale ser escrava do meu Deus do que escrava da minha carne."


"Caritas omnia suffert, omniacredit, omnia sperat, omnia sustinet."- A caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre."


"fé é a substância das coisas que se esperam, prova das coisas que não se vêem."


"As pessoas desassossegadas não têm vidas sossegadas."´


"É à noite que é belo acreditar na luz."

"-Tenho medo-grasnou Ditosa.

-Mas queres voar, não queres?- miou Zorbas.

Do campanário de São Miguel via-se toda a cidade. A chuva envolvia a torre da televisão e, no porto, as gruas pareciam animais em repouso.

(...)

-Tenho medo! Mamã!-grasnou Ditosa.

(...)

-Vais voar, Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas- miou Zorbas.

A gaivota estendeu as asas. os projectores banhavam-na de luz e a chuva salpicava-lhe as penas de pérolas. O humano e o gato viram-na erguer a cabeça de olhos fechados.

-A chuva, a água. Gosto!- Grasnou.

-Vais voar- miou Zorbas.

-Gosto de ti. És um gato muito bom- grasnou ela aproximando-se da beira do varandim.

-Vais voar. Todo o céu será teu- miou Zorbas."

SEPÚLVEDA, Luis "História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar" edições ASA, págs. 119 e 120
Ás vezes, as tempestades são bem necessárias, como afirma José Eduardo Agualusa, num artigo da Revista Pública de 7 de Setembro. As tempestades são um movimento brusco que provoca mudanças, que origina renovações. A partir desse instante, nada pode ser como dantes e daí que sejamos obrigados a evoluir, a abrir os olhos.

Para crescer, é preciso…

Segundo o pediatra Mário Cordeiro, os bebés recém-nascidos sofrem de um stress relacionado com a alteração radical do ambiente uterino para o mundo “cá fora”- “Trata-se de uma fase de organização do cérebro, que terá que ser percorrida para se atingir um grau de maturidade superior."[1] Curiosa esta perspectiva, considerando que estamos numa época em que o sofrimento parece não ter sentido nenhum e em que tudo o que é bom, fácil e saboroso é que vale a pena. Todavia, se pensarmos bem, olharmos a nossa própria vida ou a vida dos que nos rodeiam, veremos que existem muitos exemplos de quem, face às adversidades mais inesperadas, demonstraram potencialidades ainda mais surpreendentes, que nem sequer conheciam.
Este poder do sofrimento é qualquer coisa de extraordinário. Recordo um exemplo muitíssimo próximo, cuja personalidade era totalmente pragmática, confinada ao palpável, sem lugar para emoções ou sentimentos e com a frieza normal destas personalidades. Um grande sofrimento, contínuo e progressivo, mostra-nos, hoje, alguém paciente, amável e sensível. Este novo ser evoluiu, progrediu, transformou-se com a ajuda de uma dor intensa, que não deixou espaço para o egoísmo e para a superficialidade.
Por algum motivo, a Bíblia salienta a cruz como uma oportunidade, mas também, não deixa de referir que esta proposta é uma tamanha “loucura”- “Efectivamente, a linguagem da cruz é uma loucura para os que se perdem, mas, para os que se salvam, isto é, para nós, é a força de Deus.”[2] De facto, trata-se de uma “loucura”, uma vez que não é o caminho mais fácil, nem sedutor, mas, certamente, que também não se trata de masoquismo, de procurar o sofrimento. Trata-se de perceber o sofrimento como algo que deve ser construtivo e de sentir que tudo é para bem. E isto é uma tremenda aventura.
Quantos de nós temos dificuldade no relacionamento com uma determinada pessoa, com quem, ainda para mais, temos de conviver de perto? Quantos de nós já passámos por dores físicas, psicológicas e/ ou morais que pareciam ferir de morte? E quantos de nós, apesar de tudo isso, ainda acordamos, ainda lutamos, ainda sorrimos? Dá saúde e faz crescer.
A propósito, aproveito para contar uma pequena história. Era uma vez um comerciante de canela. Ele comprava o produto em rama, reduzindo-o a um pó finíssimo, através de um moinho de pedras. Um dia, o moinho deixou de funcionar. As pedras estavam desgastadas e era preciso importar outras da Alemanha. Passou o tempo, e as pedras nunca mais chegavam e a canela estava por moer. Um amigo, vendo a tristeza do comerciante, aconselhou-o a ir ao rio buscar uns seixos rolados do tamanho das pedras gastas e encaixá-los no moinho, fazendo-os girar durante vários dias, sem deitar a canela. Ele assim fez. Ao fim de quinze dias, verificou que os seixos rolados, de tanto roçarem e chocarem um no outro, tinham ficado polidos e tão lisos como as pedras vindas da Alemanha.
Moral da história: pode ser através de uma pessoa ou de um acontecimento, mas todos precisamos de algo que nos faça polir as arestas, tirar os picos, crescer e “atingir um grau de maturidade superior.”
[1] O Grande Livro do Bebé, A Esfera dos Livros, pág 389
[2] 1 Cor, 1 18-19